— Quem é você?
— Sou aquela que você passou a vida inteira tentando não conhecer.
— A Morte?
— Sim.
— Então por que veio conversar comigo?
— Porque você passou tempo demais tentando compreender a vida sem compreender a finitude.
Fiquei em silêncio.
Havia algo desconcertante naquela presença. Ela não parecia cruel, nem ameaçadora. Era apenas inevitável.
— Você me assusta?
— Não sei.
— Pense melhor.
— Talvez eu não tenha medo de você. Talvez tenha medo daquilo que você revela sobre mim.
— E o que revelo?
— Que não sou eterno.
A Morte sorriu.
— Essa é uma das poucas verdades que os seres humanos conhecem desde o nascimento e, ainda assim, passam a vida tentando esquecer.
— Por que fazemos isso?
— Porque a consciência da finitude obriga vocês a olhar para a própria existência.
— E isso é tão terrível?
— Para quem vive distraído, sim.
Olhei para o horizonte.
— Então o problema não é morrer?
— Não. O problema é viver sem perceber que se está vivo.
— Explique.
— Muitos confundem existência com vida. Respirar não significa viver. Acumular experiências não significa compreendê-las. Ter anos não significa ter vivido. E possuir liberdade não significa saber o que fazer com ela.
— Então o que significa viver?
— Essa resposta não pertence a mim.
— Por quê?
— Porque cada ser humano precisa descobri-la por si mesmo.
Caminhamos em silêncio.
Depois de algum tempo, perguntei:
— Você acredita que a vida possui um sentido?
A Morte respondeu:
— Eu não acredito em nada. Apenas observo.
— E o que você observa?
— Pessoas procurando sentido em lugares onde ele não existe.
— Onde procuram?
— No dinheiro. No reconhecimento. No poder. Na aprovação dos outros. Na acumulação de coisas. Na tentativa de serem lembradas.
— E isso é errado?
— Não necessariamente. Mas tudo aquilo que depende do olhar dos outros torna-se frágil quando os outros deixam de olhar.
Parei de caminhar.
— Então o que permanece?
— Talvez nada.
A resposta me incomodou.
— Nada?
— Por que você precisa que alguma coisa permaneça?
— Porque quero acreditar que minha existência significa alguma coisa.
A Morte me encarou.
— Talvez o significado não esteja em permanecer.
— Então onde está?
— Em existir plenamente enquanto se existe.
Fiquei pensando.
Talvez estivéssemos sempre tentando transformar a vida em monumento porque temos medo de aceitar que somos passagem.
— Você quer dizer que não precisamos ser eternos para ter significado?
— Exatamente.
— Uma flor é menos bela porque morre?
— Não.
— Uma música perde seu valor porque termina?
— Não.
— Então talvez a vida também não precise durar para sempre para ser significativa.
A Morte permaneceu em silêncio.
E, naquele silêncio, compreendi algo que nenhuma palavra poderia explicar completamente:
A finitude não é necessariamente inimiga da existência.
Talvez seja aquilo que lhe dá contorno.
Se tivéssemos tempo infinito, cada escolha perderia urgência. Se todas as oportunidades fossem eternamente disponíveis, talvez nenhuma tivesse verdadeiro valor.
É porque o tempo passa que uma tarde pode ser preciosa. É porque alguém pode partir que um abraço importa. É porque existe despedida que o encontro possui profundidade.
— Então você não destrói o sentido da vida?
— Não.
— O que você faz?
— Revelo que o sentido nunca esteve na duração.
— Onde esteve, então?
— Na experiência de estar consciente enquanto o tempo acontecia.
Olhei novamente para minhas mãos.
Elas pareciam diferentes.
As mesmas mãos, a mesma pele — mas agora carregavam uma pergunta.
— Quando você vier me buscar, o que devo levar?
— Nada.
— Nem minhas conquistas?
— Não.
— Meus livros?
— Não.
— Minhas lembranças?
A Morte ficou em silêncio por alguns segundos.
— Talvez sejam elas que você carregará enquanto ainda estiver vivo.
— E depois?
— Depois, você descobrirá.
Não gostei da resposta.
Talvez porque a humanidade tenha criado religiões, filosofias, teorias e histórias justamente para preencher o espaço deixado por essa pergunta.
— Então ninguém sabe o que existe depois da morte?
— Muitos afirmam saber.
— E sabem?
— Alguns acreditam. Outros imaginam. Outros afirmam por necessidade. E existem aqueles que simplesmente aceitam não saber.
— E você?
— Eu sou a pergunta.
— A pergunta?
— Sim. Enquanto você vive, eu sou a pergunta que permanece diante de todas as certezas.
Ela começou a se afastar.
— Espere.
Ela parou.
— Você voltará?
— Certamente.
— Quando?
Ela sorriu.
— Essa é justamente a pergunta que impede você de saber quanto tempo ainda possui.
E desapareceu.
Fiquei sozinho.
O mundo continuava em movimento. O tempo seguia seu curso, indiferente às minhas inquietações.
Talvez seja essa a condição humana: existir entre duas certezas — o nascimento, que não escolhemos, e a morte, que não podemos evitar — enquanto tentamos atribuir significado ao intervalo entre elas.
Não sabemos quanto tempo temos. Sabemos apenas que temos algum.
E talvez isso seja suficiente.
Olhei para o céu e compreendi que a pergunta mais importante não estava no fim da existência, mas no seu decorrer:
O que estou fazendo com o tempo que me foi dado?
Autor: Cícero Henares
* Todos os direitos autorais reservados ao autor da obra.
