— Nietzsche, por que a vida precisa ser tão difícil?

— Por que você chama de dificuldade aquilo que talvez seja apenas resistência?

— Resistência a quê?

— Àquilo que você ainda não consegue suportar em si mesmo.

— Então o sofrimento tem algum propósito?

— Não procure propósitos onde há forças. O sofrimento não é um professor sentado à sua espera. Ele simplesmente acontece. Você é quem pode transformá-lo.

— Transformá-lo em quê?

— Em força. Em lucidez. Em criação. Ou em ressentimento.

— Ressentimento?

— A doença daquele que não consegue agir e, por isso, passa a condenar a vida. Quando não pode mudar o mundo, condena-o. Quando não pode alcançar aquilo que deseja, declara que não vale a pena desejar.

— Então odiar a vida é uma forma de fraqueza?

— Às vezes, é uma forma de vingança contra ela.

— E como escapar disso?

— Não escapando. Superando.

— Superando o quê?

— A necessidade de que a vida seja diferente para que você possa amá-la.

— Amar a vida mesmo quando ela me fere?

— Amar a vida não é gostar de tudo o que acontece. É dizer sim à existência inteira, sem exigir que ela seja poupada de suas contradições.

— Isso é o que você chama de amor fati?

— Exatamente. Não apenas suportar o destino, mas querer que ele seja seu.

— Até mesmo os erros?

— Principalmente eles. Você gostaria de apagar partes de si mesmo porque não suportou ser aquele homem naquele momento. Mas quem seria você sem aquilo que precisou atravessar?

— E se eu pudesse voltar e escolher diferente?

Nietzsche se aproximou.

— Essa pergunta é mais profunda do que parece.

— Por quê?

— Porque há uma forma de eternidade mais terrível que a promessa de outro mundo: imaginar que este instante, exatamente este, retornará infinitamente.

— Você fala do eterno retorno.

— Sim. Imagine que um demônio lhe dissesse: “Você terá de viver novamente cada instante de sua existência. A mesma dor, a mesma alegria, os mesmos erros, os mesmos encontros. Nada será alterado.”

— Eu desejaria outra vida.

— Então ainda há algo em sua vida que você não afirmou.

— Mas ninguém escolheria repetir o sofrimento.

— Talvez não. Mas a questão não é o que você escolheria depois de ouvir a proposta. A questão é: que vida precisaria construir para poder responder “sim”?

Permaneci calado.

— E os meus valores? — perguntei.

— Quais?

— Justiça, bondade, humildade…

— Palavras bonitas são frequentemente esconderijos confortáveis.

— Você desconfia da moral?

— Desconfio da moral que não conhece sua própria origem.

— E como saber se um valor é verdadeiro?

— Talvez essa seja a pergunta errada.

— Qual seria a certa?

— Esse valor aumenta ou diminui a potência da vida?

— Potência?

— A capacidade de criar, afirmar, superar, tornar-se aquilo que ainda não se é.

— Então devo fazer tudo o que me torna mais forte?

— Não confunda potência com brutalidade. Uma planta que cresce não precisa odiar a pedra que encontra. Ela simplesmente encontra uma maneira de crescer.

— E quando a sociedade me diz quem devo ser?

— Pergunte quem fala através dela.

— E se forem meus pais, meus professores, meus amigos?

— Ainda assim, pergunte.

— Isso não pode nos tornar solitários?

— Pensar por conta própria quase sempre começa como solidão.

— E depois?

— Depois você descobre que não precisava de uma multidão para possuir uma alma.

Olhei para ele.

— Então devo criar a mim mesmo?

— Não diga “devo”. Essa palavra já carrega uma ordem.

— Então o que faço?

Nietzsche sorriu.

— Torne-se aquilo que você é.

— Mas como posso tornar-me aquilo que já sou?

— Você não é uma coisa pronta. É uma tarefa.

O silêncio voltou.

— E se eu nunca conseguir?

— Então ao menos não transforme o fracasso em desculpa para permanecer pequeno.

— Você não oferece muita esperança.

— Ofereço algo mais difícil: possibilidade.

— E qual é a diferença?

— A esperança espera. A possibilidade exige criação.

Ele se afastou.

— Nietzsche.

Ele parou.

— Depois de tudo isso, o que devo fazer amanhã?

Ele se virou.

— Viva de tal maneira que, se a eternidade lhe bater à porta, você não precise pedir que ela vá embora.

E então partiu.

Desta vez, não procurei uma resposta.

Procurei uma vida que pudesse suportar a pergunta.


Autor: Cícero Henares
* Todos os direitos autorais reservados ao autor da obra.