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ESQUIZOFRENIA

“…aquela árvore não estava lá.”

Pela janela daquele lugar frio fiz essa observação como se fosse algo natural, espontânea reação de quem  estava recuperando a consciência sem saber ao certo se  acordara ou pairava ainda, submerso em um sono profundo.

O relógio na parede marcava exatamente 9 horas da manhã. Tudo estava parado. O orvalho que começara a escorrer pelas folhas da árvore em frente à minha janela havia, como que congelado, também parado. As únicas coisas que podiam-se ouvir naquela quietude estagnada eram as batidas de meu coração e o irritante tic tac do relógio. O tempo e minha vida seguiam em frente…inabalados…reais.

Sem tirar o pijama levantei da cama e me aproximei da janela. Estranho, tive a sensação de estar flutuando e não caminhando. Realmente eu estava flutuando. Sim…flutuando!

Não havia ninguém lá fora. Nem insetos, nem som, nem vento…nada. O mundo era meu!

A sensação de liberdade era esmagada pelo eterno tic tac que insistia em me acompanhar. O mais estranho era que o relógio flutuava ao meu lado, como um cão que segue seu dono onde quer que ele vá. O relógio tinha uma espécie de asas. Sim…com penas e tudo. Eu flutuava, o relógio voava…batia as asas mesmo.

O primeiro lugar que me veio à cabeça, onde eu pudesse ir tentar esclarecer essa loucura surreal, foi a igreja. Provavelmente o Padre Francisco estaria lá à rezar, seja qual fosse o mal que estivesse pairando sobre nós naquele momento. A igreja ficava à uns 10 quarteirões de minha casa, tendo que passar pela praça dos desejos para chegar até lá.

Fazer aquele trajeto flutuando era realmente uma aventura maravilhosa, eu até havia me esquecido do tic tac do relógio voador. Passando sobre a praça, pude notar algo tão curioso como toda aquela situação… Um senhor, bem velhinho, estava sentado em um banco lendo um livro. Até aí, nada de muito estranho, a não ser pelo fato de ser o mesmo velhinho que ficava em frente à fonte luminosa pedindo esmolas, e ele é cego.  A curiosidade foi tanta que resolvi fazer uma aterrizagem de emergência e conferir o milagre de perto. Pasmem! O livro tinha as páginas em branco. Quando o velhinho notou minha presença, me olhou. Seu rosto foi inchando…inchando…inchando até que explodiu. Não houve sangue…nem pedaços de cérebro, nem ossos, nem cabelos nem olhos. Apenas letras jorravam da explosão da cabeça do pobre velho. Infinitas letras, que, desconexas, formavam frases abstratas e sem sentido…meras poesias regadas de dores e desencontros que a vida havia proporcionado àquele pobre ser. Continuei meu caminho rumo à igreja.

Não vi mais ninguém…apenas cachorros flutuando por toda parte. De todas as raças e viralatices possíveis. Eram cachorros flutuando usando óculos escuros, segurando com as patas sujas, cartas de baralho, talvez de alguma partida inacabada de poker ou buraco. Tinha cachorro de terno fumando charuto cubano e até cachorro com fones de ouvido curtindo um som psicodélico qualquer.

A igreja já estava aos meus pés. Aquela enorme escadaria era muito mais bonita vista de cima. Toda branca, mas de um branco encardido que chegava a se confundir com a dor. Talvez as dores de centenas ou milhares de pessoas que ali pagaram suas promessas sem saberem que milagres são de graça. E por falar em milagre, me lembrei de um poema que fiz quando criança.

 

“Aos milagres da vida me curvo,

ao dom de amar me entrego, na

esperança de que o milagre do

amor me cerque e me ganhe, sem

pudor ou clamor.”

 

A porta da igreja era de uma madeira trabalhada, muito bonita e enorme. Estava fechada, o que não era costume. Tentei gritar pelo Padre Francisco mas a voz não saía. De repente a porta foi abrindo…abrindo…abrindo, e revelou uma escuridão fria. Lá estava o Padre, gordo como sempre e com aquele sorriso acolhedor…também de sempre.

 

Engraçado…dentro da igreja é o único lugar onde não consigo flutuar. Onde, depois de entrar, não se ouvia mais o tic tac do relógio voador.

Tudo ficou desconexo, por alguns minutos fechei meus olhos e quando voltei a mim o corpo do Padre jazia aos meus pés. Me vi tomado pelo medo. A faca em minha mão, toda suja de sangue…o padre caído aos meus pés, já sem vida. Fiquei ali parado tentando lembrar como tudo havia acontecido, uma lacuna em minha mente bloqueava as lembranças.

Quarto frio e escuro.

Silêncio ensurdecedor. A tortura de viver com aquelas lembranças é uma sensação instantânea e involuntária. O medo de viver tudo aquilo novamente preenche cada milímetro de minha alma.

Fui diagnosticado como esquizofrênico…simplesmente assim.