Encontrei nesse texto de Fernado Brant, na medida mais próxima do que senti e sinto com a morte de meu pai. Nesses últimos 16 anos eu não conseguia encontrar palavras para colocar em um texto onde fosse descrito todo sentimento, toda dor e todas as lembranças dessa pessoa que foi e é tão importante para mim. Esse momento chegou. Essa justíssima homenagem não encerra um ciclo mas inicia-se em minha vida um novo período de reflexões sobre o amor, o companheirismo, a humildade, a honestidade e a caridade, que sempre foram os ensinamentos que meu pai passava. Quem o conheceu sabe do que estou falando. Leiam com a alma e o coração esse texto perfeito…

PRESENÇA

Há uma tristeza instalada em meu peito. Ela dói e molha meus olhos, toma conta dos meus pensamentos. São os esbarrões que levamos da vida, uns mais violentos do que outros, que nos põem de frente à certeza de nossa insignificância, nossa miudeza diante do infinito e dos mistérios da vida.

(…) Não é castigo, é dádiva, o fato de guardarmos na lembrança, e de uma maneira quase física, a imagem de alguém que preencheu nossos dias com exemplos e alegria. É como se essa figura excepcional, que tivemos o privilégio de conhecer e desfrutar, se incorporasse definitivamente ao nosso destino, ao nosso ser diário. Fica quieto  dentro de nós e, sem aviso, tomam conta de nossa consciência, parece nos influenciar a refletir e agir com mais lucidez e equilíbrio.

Assim, se no primeiro momento nos sentimos órfãos e desamparados, com o seguir dos dias é como se acrescentássemos as qualidades da pessoa querida aos nossos valores. Aí já não há somente a perda, a saudade, a noção real de que nunca mais veremos aquele companheiro de conversas animadas e de projetos realizados e irrealizados. Faltarão sempre os abraços…a presença, mas restarão as memórias das ideias, da voz, do companheirismo e da amizade.

Há um ganho consistente, que se incorpora em nós como um perfume que nos inebria de doçura e nos ajuda a enfrentar a realidade, que para nós continua com sua dureza constante e cotidiana.

Nossos diálogos continuam. No silêncio de meus pensamentos continuo a conversar, pedir conselhos e te escutar. Cultivar essas ocasiões de diálogo silencioso não parece ser coisa de doido nem um delírio. São só os mecanismos de sentimentos funcionando. Não que eu queira me enganar, me entregar a ilusões que compensem sua ausência. Você marcou com tanta clareza seu espaço no mundo e em minha vida, que a morte não é capaz de apagar a grandeza do amor que sinto por você.

(Fernado Brant – Livro: Casa Aberta Pg 15)

20170507_122901                                                                              (Djalma Henares – Meu saudoso e amado pai)

 

Leia assistindo esse clipe maravilhoso…