Claire… tão jovem por quem a vê,
o rosto infeliz e desestruturado sempre deu o entendimento de fraqueza.
Ela está deslumbrante hoje, uma brilhante vestimenta e um toque de segredos nos escuros e profundos olhos, isso intensifica quando é o centro das atenções do grande palco artístico.
A coragem é notada em cada passo, em cada movimento corporal que Claire ousa dar. Um toque no grande velho piano é como um oceano tomando conta de todas as partes do ser, todos os átomos presentes na matéria do nosso corpo prestes a entrar em colapso.
Claire… Não faz idéia do que faz a música se tornar. É diferente, a sensação distante que meus ouvidos me forçam a ter. Meus olhos em si, acreditam em situações completamente fora da realidade, me fazendo supor acima do mistério que anda ao lado daquela névoa de questões intrigantes, sem nenhum nexo visto que não sou de julgamentos, mas é como se eu me enxergasse em Claire. Meus olhos guardam aquilo que nunca notam, por já conhecerem a mente por ato. Consequentemente sou apenas um borrão nas histórias irrelevantes de quadrinhos que guardam em suas breves memórias. Estou doente, cansado, mas não a ponto de deixar o espetáculo.
Eu me mantive em segredo por todas as horas visitando Claire mentalmente.
Apesar da angústia repulsiva que havia me provocado, eu não podia negar a total paz que seu talento me garantia.
Ela sabia como manipular as dores, como as transformar em água e vinho se quisesse, e eu não quis nenhuma outra circunstância além do pensamento de escapar da prisão que me cercava em todos os sentidos humanos. Eu fugi por alguns metros até ser notado pela atenção gloriosa de Claire, e sendo preso novamente por isso, abri um caminho para que eu ainda a tivesse nos meus planos futuros. Eu desejei fugir com nossos laços juntos, escapar até os altos picos das montanhas, ou escondendo quem somos atrás das luzes japonesas. Coincidência ou não, Claire também é apaixonada pelas brilhantes e coloridas luzes. Mas tudo não se passa de pensamentos, ainda sei que se minha escolha fosse tomada como certa, algum dia teria que lidar contra dor de desaprender o que é amar, perder e esquecer o que prometi minha eternidade. Evito, dou meia volta e sigo o caminho que a vida pode ou não ter reservado para mim.
Depois de muitos anos, ainda me pego pensando nela, se me faltou coragem ou sobrou realidade demais nos meus olhos.
Me pergunto em todos os finais de tarde, se valeria a pena a perda, se o aprendizado me tornaria mais forte.
Tudo depende do que tenho, das lembranças que eu poderia fazer ao seu lado, mas que desisti pela visão precipitada do medo e prepotência do destino.
Evitei minha tristeza, e perdi minha felicidade. Claire se foi há algum tempo, ninguém ao menos sabe o que pensava antes do fim bater em sua porta, mas ao que parece, ela estava sozinha, provavelmente todos esses anos esperando minha coragem tomar liderança sobre a insegurança. A culpa me invade, pelo tempo que não foi dado para nossos sentimentos.
Autor: Pedro Henares
