Tudo estava do mesmo jeito. Nil pode notar o mesmo apanhador de sonhos que ele mesmo havia colocado sobre a porta de entrada da casa. É certo que a cerca de madeira estava toda quebrada, podre e tomada pelo mato. Dois anos se passaram desde que ele fora internado naquele sanatório e muita coisa aconteceu nesse tempo. Sua mãe falacera e ele nem pode ir ao enterro, mas isso não importava pois ela sempre fora uma mãe omissa, que se entregava ao álcool e às drogas para poder suportar a brutalidade de seu pai. Chovia…aquela chuva calma mas constante. Ele ficou parado em frente ao portão de madeira por alguns minutos pensando em como seria a sensação ao ver novamente seu pai. Não havia rancor por parte dele…nem amor…nem nada. O tênis All Star azul coberto por lama e encharcado. A calça Levis molhada…pesada, mas, bem menos pesada que o primeiro passo que ele deveria dar para entrar e encarar seu pai.
Sua mente expandiu…
Tô cansado do moralismo. Tô cansado das coisas banais. Tô cansado do sentimentalismo, tô cansado do que me faz normal. Aquele passo poderia ser a mesma coisa que sair do esgoto…ou entrar em um falso paraíso no qual a maioria dos seres humanos estão acostumados a viver. A expansão da mente começara naquele momento a levar Nil à uma viagem transcedental repleta de cores, sons e sensações indescritíveis. Leitor, te convido a vir comigo à esse mundo despido de toda a falsidade, hipocrisia e falso moralismo.
PRÓLOGO PARA O PRÓXIMO CAPÍTULO
Não escolhemos onde nascer. Eu me fodi com isso. Não me culpo pelo meu sofrimento…culpo a vida. Então eu pensava: FODA-SE! Vou renascer para uma vida que eu mesmo vou criar. Quero nascer de mim mesmo, dos meus pensamentos e desejos. E assim nasceu Nil.
O tênis All Star arrebentou com um chute o que ainda restava da cerca de madeira. Alguns passos depois…a porta da sala, entrada principal da casa, teve o mesmo final do portão. O Tênis All Star azul de Nil permanecia intacto, apesar da força que usara para estraçalhar o portão de madeira e a porta da casa. Aqueles passos pareciam eternos, mas foram poucos até ele chegar na sala. A casa estava completamente vazia. Nenhum móvel, apenas o cheiro de podridão que tomava conta do lugar. A única lembrança física que ele encontrou foi uma foto esquecida na parede de um dos quartos onde estavam ele, a mãe e o pai ao lado do Ford 1.968 que seu pai tinha comprado. Todos sorrindo, escondendo a verdadeira face do sofrimento que “aquele” Nil presenciava todo dia. Sua reação foi dar um soco com toda sua força na foto que estava em uma moldura de vidro que quebrou em vários pedaços. Sua mão sangrava, para aquele Nil, que acabara de renascer, isso não significava nada. Apenas lambeu o sangue que escorria pela mão e sentiu o doce sabor de sua nova vida. Sentiu prazer com o gosto do sangue…e isso mudou seu destino para sempre. Ali começava sua nova história.
(Texto: Cícero André Henares – 05/06/2021)
