“Se é verdade que a verdade da fé cristã ultrapassa as capacidades da razão humana, nem por isso os princípios inatos naturalmente à razão podem estar em contradição com esta verdade sobrenatural.
É um fato que esses princípios naturalmente inatos à razão humana são absolutamente verdadeiros; são tão verdadeiros que chega a ser impossível pensar que possam ser falsos. Tampouco é permitido considerar falso aquilo que cremos pela fé, e que Deus confirmou de maneira tão evidente. Já que só o falso constitui o contrário do verdadeiro, como se conclui claramente da definição dos sois conceitos, é impossível que a verdade da fé seja contrária aos princípios que a razão humana conhece em virtude das suas forças naturais.”
____________(Tomás de Aquino – Súmula contra os gentios)
Assim, não seria possível que a teologia (as verdades da fé) e a filosofia (as verdades da razão) se contrariassem. Para que houvesse colaboração adequada entre elas, entretanto, o campo de atuação de cada uma deveria ser claramente definido, ou seja, seria preciso estabelecer o domínio particular das duas áreas. À filosofia caberia o estudo da natureza, fundamentado na investigação empírica e na busca racional dos princípios gerais de tudo o que existe. À teologia caberia o estudo do sobrenatural, isto é, das verdades reveladas por Deus sobre os mistérios, como a encarnação, a ressurreição, a trindade etc. – as verdades que não poderiam ser demonstradas pela razão.
Segundo o pensamento tomista, não poderia haver, então, contraposição entre a filosofia e a teologia, pois os objetos de estudo de ambas, as verdades reveladas e as verdades da razão, fariam parte da unidade ou totalidade da verdade. Contrapor uma à outra seria confrontar uma verdade com a outra. Assim, seria necessário haver concordância entre fé e razão; caso existisse conflito entre as conclusões racionais e os dogmas cristãos, haveria algum erro ou incompreensão do pensamento racional, pois não poderia ocorrer erro na palavra de Deus.
(Ricardo Melani – Diálogo: primeiros estudos em filosofia pg 143 – Editora Moderna)
