Ninguém jamais soube quando ele surgiu.
Não houve nascimento, não houve choro, não houve primeiro suspiro. Não havia registros, memórias ou marcas de sua passagem. Era como se tivesse surgido no mundo da mesma forma que uma sombra nasce: silenciosa, sem anúncio, sem direito à existência própria.
Ele caminhava entre as pessoas.
Passava pelas ruas movimentadas, atravessava avenidas, entrava em lojas, sentava-se em bancos de praça. Observava risos, discussões, abraços. Via crianças correndo, casais de mãos dadas, idosos olhando o tempo passar. E ninguém — absolutamente ninguém — o enxergava.
No início, ele tentou tocar alguém, sua mão atravessou um ombro como se fosse névoa. Tentou gritar. Sua voz não produziu som algum. Tentou ficar na frente de alguém, bloquear o caminho — e foi atravessado, como se fosse feito de ar.
Ele não tinha corpo.
Mas sentia.
E isso era o mais cruel.
Não sentia fome. Nunca teve sede. Nunca precisou dormir. Os dias e as noites não faziam diferença. O tempo não o desgastava. O frio não o incomodava, o calor não o afetava.
Mas a dor…
A dor era constante.
Uma dor silenciosa, profunda, impossível de localizar. Não vinha do corpo — porque ele não tinha um. Vinha de algo mais antigo, mais essencial. Uma dor de ausência. Uma dor de nunca ter sido.
Ele sentia saudade.
Mas saudade de quê?
Não havia infância, não havia lembranças, não havia rosto de mãe, nem voz de pai, nem qualquer história para recordar. Ainda assim, dentro dele, havia um vazio que gritava como se tivesse perdido tudo.
Como se, em algum lugar impossível, tivesse vivido uma vida inteira — e ela tivesse sido arrancada.
Ele tentou dar a si mesmo um nome.
Repetia palavras que ouvia pelas ruas. Nomes comuns, nomes raros, nomes antigos. Porque nomes pertencem a quem existe.
E ele… não existia.
Os anos passaram — se é que aquilo podia ser chamado de anos.
Ele assistiu cidades mudarem. Prédios surgirem onde antes havia vazio. Viu rostos desaparecerem com o tempo, substituídos por outros. Observou gerações inteiras nascerem, viverem e morrerem.
E ele permanecia.
Intocado. Imutável. Invisível.
Eterno.
Foi então que percebeu algo perturbador.
Às vezes… alguém hesitava.
Um olhar que demorava um segundo a mais. Um leve arrepio. Um instante em que alguém parecia quase percebê-lo — como se um pedaço da realidade falhasse por um breve momento.
Mas nunca o suficiente.
Nunca completo.
Nunca real.
Ele começou a se perguntar se era um erro.
Um defeito no tecido do mundo. Algo que não deveria estar ali. Uma falha esquecida, deixada para trás por alguma força que constrói e destrói tudo.
E, se fosse isso…
Jamais seria corrigido.
Porque ninguém pode corrigir o que não percebe.
Certo dia — se é que dias ainda significavam algo — ele parou no meio de uma multidão. Ficou imóvel. Pela primeira vez, não tentou andar, nem observar, nem compreender.
Apenas… sentiu.
A dor. O vazio. A ausência.
E então, algo mudou.
Não no mundo.
Nele.
Pela primeira vez, ele percebeu que, mesmo não existindo para ninguém…
ele existia para si.
Era pouco.
Era quase nada.
Mas era alguma coisa.
E naquela eternidade silenciosa, isso era o mais próximo que ele jamais teria de ser real.
Ele nunca teria nome.
Nunca teria voz.
Nunca teria um fim.
Mas, enquanto sentisse…enquanto soubesse…ele seria, ao menos, o único testemunho da própria inexistência.
E assim continuou.
Caminhando entre nós.
Para sempre.
Sem nunca ter existido.
Autor: Cícero André Henares
* Todos os direitos autorais reservados ao autor do texto
