Naquela cidade pequena, onde o inverno parecia eterno mesmo sem neve, havia uma tradição que ninguém ousava questionar: toda véspera de Natal, às três da manhã, as luzes se apagavam por exatamente sete minutos.
Diziam que era apenas um problema na rede elétrica. Mas as crianças… as crianças sabiam que não era.
Eu descobri isso no Natal em que completei oito anos.
Minha avó sempre dizia para eu dormir cedo, que o Papai Noel só vinha quando todos estivessem em silêncio absoluto. “Ele escuta”, ela sussurrava, com um olhar que não parecia brincadeira. “E ele não gosta de ser visto.”
Mas naquela noite, algo dentro de mim insistia em ficar acordado. Talvez fosse a curiosidade. Talvez fosse o medo.
Às três da manhã, como sempre, as luzes se apagaram.
Tudo ficou denso. O ar parecia pesado, como se a casa estivesse prendendo a respiração.
Então eu ouvi.
Não eram sinos.
Era um arrastar lento… como algo pesado sendo puxado sobre o telhado.
Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que aquilo — seja lá o que fosse — podia ouvir. Mesmo assim, levantei da cama e caminhei até a sala, guiado pela fraca luz da lua que entrava pela janela.
A árvore de Natal estava ali. Imóvel.
Mas havia algo diferente.
Os presentes… não estavam como antes.
Um deles se mexeu.
Eu congelei.
O papel rasgou de dentro para fora, lentamente, como se algo estivesse nascendo ali. Uma mão pálida surgiu, com dedos longos demais, dobrando-se de forma errada.
Tentei gritar, mas nenhum som saiu.
Então ouvi a voz.


— Você não deveria estar acordado.


Vinha da lareira.
Olhei devagar… e vi.
Ele não era gordo. Não sorria. Não tinha olhos como os das histórias.
Era alto demais, magro demais, com um rosto esticado como se tivesse sido puxado pela própria pele. A barba parecia feita de fios mortos, escuros, grudados em um queixo pontudo. E os olhos…
Vazios.
Mas atentos.
Ele não carregava um saco.
Ele trazia um corpo.
Uma criança, imóvel, pendurada sobre o ombro como um brinquedo quebrado.


— Crianças boas dormem — ele disse, inclinando a cabeça de um jeito impossível. — Crianças acordadas… aprendem.


Tentei correr.
Não consegui.
Meus pés estavam presos ao chão, como se o próprio medo tivesse criado raízes.
Ele deu um passo.
Depois outro.
O chão rangia sob o peso que não deveria existir.


— Há muito tempo — ele continuou — eu não trago presentes.


A criatura se ajoelhou diante de mim.
O cheiro… era de terra molhada. De algo enterrado há tempo demais.


— Eu levo. – A criança em seu ombro abriu os olhos e sorriu.


Foi nesse momento que as luzes voltaram.
Tudo desapareceu.
A sala estava vazia. A árvore intacta. Os presentes, fechados.
Mas no chão… havia marcas.
Arrastos.
E perto da lareira… pegadas.
Não de botas.
De algo que não era humano.
Na manhã seguinte, a cidade inteira comentou o mesmo.
Uma criança havia sumido.
Ninguém sabia como.
Ninguém viu nada.
Mas todos, absolutamente todos, garantiram que, às três da manhã… ouviram algo no telhado.
Desde então, eu nunca mais fiquei acordado no Natal.
E até hoje, quando as luzes se apagam por sete minutos…
Eu não respiro.
Porque agora eu sei:
O Papai Noel existe.
Só que ele não vem para dar.
Ele vem para levar.

Autor: Cícero Henares

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