Fecho os olhos e sinto o ar fresco de Paris. Volto, em pensamento, àquela noite de 1888. A luz amarela do terraço se misturava com a noite, fazendo predominar aquele azul discreto da noite parisiense. A xícara de café sobre a mesa indicava que aquele homem esperava ansioso por alguém. Um encontro romântico, de negócios ou quem sabe, talvez, estava apenas tentando encontrar a si mesmo. Isso acontece de vez em quando…encontrar a si mesmo. E, da janela do meu quarto eu o observava, atento e curioso. Cada detalhe daquela cena era perfeito…a luz amarela, a noite, as estrelas. As pessoas transitavam pela rua de pedras, invisíveis a si mesmas. Mais uma vez ele olhou no relógio. Indicava um atraso? – ou mera formalidade da ansiedade? A xícara de café sobre a mesa e a incerteza na expressão do rosto de quem espera. Observando a cena imagino tudo isso em uma tela, pintada a óleo. O movimento do pincel deslizando sobre a tela sedenta pela beleza. O cheiro da tinta se confunde com o cheiro do café. O preto com o azul se transformam na cor daquela noite.

A perfeita imagem do homem que espera. A inquietude do tempo que insiste em ser impiedoso a cada segundo que passa. O som do piano ao fundo e a trilha sonora que se mistura com o silêncio profundo daquele momento. A cada movimento do pincel pela tela eu imagino o homem, a xícara de café e o tempo. O tempo parece congelar.

Acendo um cigarro. Olho novamente para o relógio. O café tem um efeito que inibe minha ansiedade. Esse momento reflexivo, em busca de mim mesmo é regado pelo clima mágico de uma noite perfeita. O piano e suas notas fazem a trilha sonora que se mistura com conversas inaudíveis espalhadas pelo ar entre sorrisos e olhares. Da minha mesa observo pessoas indo e vindo…da janela do hotel, em frente ao terraço, vejo um homem a me observar. Ele parece admirar toda a cena que envolve esse momento…estaria também a procurar por si mesmo? Talvez fosse um músico buscando inspiração para compor uma nova canção ou um pintor tentando imaginar tudo aquilo em uma tela.

Olho para o relógio…com um breve sinal peço outro café. A noite parece longa…

                                                                                                                (Cícero Henares 21/12/2017)